| Boas novas
do cerrado |
| O parque nacional das emas, em
goiás, está dando certo. E mostrando como salvar uma das paisagens
mais ameaçadas do planeta. |
| por
Klester Cavalcanti fotos: Valdemir
Cunha |
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Diversidade Protegida Com riachos de águas cristalinas e incrível
biodiversidade, o parque preserva as belezas do cerrado. A
ema, a maior ave brasileira, é o símbolo do
lugar. |
A visão intriga e preocupa. Percorrendo as estradas marginais - todas
de terra batida - do Parque Nacional das Emas, o que se vê do outro lado
da cerca de madeira são fazendas, fazendas e mais fazendas. Em algumas,
planta-se milho. Em outras, soja e girassol. Há ainda aquelas em que a
mata nativa virou pasto para o gado. No extremo sudoeste de Goiás, onde
fica o parque, toda a área protegida do cerrado é um miolo de 1 320
quilômetros quadrados - pouco menor que a área da cidade de São Paulo. Há
50 anos, a vegetação e a bicharada dominavam toda a região, espalhando-se
por mais de 7 mil quilômetros quadrados, pelos cálculos do Ibama. A
tradução dos números revela que a fatia de cerrado preservada pelo parque
representa menos de 20% do que existia por essas bandas em meados do
século passado. Diante desses fatos, é de se supor que o Parque Nacional
das Emas esteja tão ameaçado quanto o resto do cerrado brasileiro. Até
alguns anos atrás, podia ser. Hoje, as estratégias de preservação estão
mudando até a mentalidade dos fazendeiros da região. Os problemas ainda
existem, mas as boas notícias provam que esse precioso naco do cerrado tem
grandes chances de ser salvo.
Reconhecido pela Unesco como Patrimônio Natural da Humanidade,
o Parque Nacional das Emas é o único no Brasil que abriga os diversos
tipos de vegetação do cerrado. Das árvores mais altas do cerradão às
gramíneas do campo limpo, passando pelos buritizais das matas ciliares, a
variedade é enorme. Tamanha diversidade de ambientes faz do Parque das
Emas um imenso zoológico a céu aberto. Araras, periquitos, tucanos,
veados, tatus, tamanduás, antas e emas estão em todo lugar. E, como a
vegetação não é muita densa, torna-se possível ao visitante admirar os
animais sem grandes dificuldades. Até a arredia onça-pintada pode aparecer
de repente.
Ocorre, porém, que essa mesma vegetação faz da área preservada uma
vítima indefesa do fogo. "Nos meses de seca, de junho a agosto, qualquer
ponta de cigarro pode provocar uma catástrofe", diz Gabriel Borges, chefe
do parque.
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Almoço no Vizinho É
comum ver os bichos que vivem no parque se alimentando
nas fazendas vizinhas. Emas, veados e araras gostam de
soja. Já os papagaios (foto maior) preferem grãos
de girassol (à esq.). |
Até 1994, o lugar sofria os efeitos das queimadas realizadas pelos
fazendeiros da região para renovar o pasto e a lavoura. "Na época da seca,
a vegetação es-tá fragilizada e os ventos chegam a 20 quilômetros por
hora, o que não é pouco numa área descampada. A so-ma desses fatores
resulta num cenário propício para uma tragédia ambiental", observa o
biólogo Mário Barroso. Além do fo-go provocado pelos fazendeiros, há ainda
a queimada natural, causada pelos raios que despencam sobre o cerrado nos
meses de chuva. "A grande diferença é que, nesse caso, a própria natureza
usa a chuva para controlar o fogo", compara Barroso. A última catástrofe
que acometeu o parque foi a queimada de 1994, que torrou mais de 90% de
toda a área.
Felizmente, o fogo que saía das fazendas e devorava o parque
não é mais um problema. Em 1995, o Ibama acabou com todas as áreas
contíguas entre as terras preservadas e as propriedades particulares,
evitando que as chamas de um lado passassem para o outro. Para impedir que
desgraças como a de 1994 voltem a acontecer, o Ibama provoca anualmente
queimadas controladas, criando barreiras naturais entre uma região e outra
do parque. "Dessa forma, não há o risco de o fogo sair do nosso controle",
afirma Gabriel Borges.
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Habitantes do Parque A bela caliandra, a
arara-canindé e o lobo-guará são algumas das espécies cuja
sobrevivência depende da conservação do cerrado. No Parque
Nacional das Emas, elas estão
protegidas. |
fazendeiros
ecologistas Graças ao esforço dos biólogos Anah Tereza
Jácomo e Leandro Silveira, os fazendeiros também entenderam a importância
da conservação ambiental e, atualmente, até colaboram com os
pesquisadores. Há nove anos estudando os animais carnívoros da região,
Anah e Leandro se encarregaram da missão de convencer os fazendeiros a
abrir as porteiras aos cientistas. Não foi fácil, mas eles conseguiram. A
parceria, iniciada há pouco mais de três anos, é imprescindível para que
as pesquisas produzam bons resultados. "É muito comum alguns animais
saírem do parque para se alimentar nas fazendas", observa Anah. Em muitos
pontos, a única separação entre a área do parque e as fazendas é uma
estrada. Os bichos só têm o trabalho de atravessá-la.
agrotóxicos e
matança Mas a proximidade com as fazendas ainda produz um
sério problema. O Ibama ainda não sabe se os produtores de soja entraram
na onda dos transgênicos - desconfia-se que sim -, mas não há dúvidas de
que os fazendeiros aplicam herbicidas na lavoura. "Dependendo do produto,
pode causar a morte instantânea do animal", alerta Leandro Silveira, do
Projeto Pró-Carnívoros. Nos últimos cinco meses, os pesquisadores
encontraram seis emas mortas. Os bichos tinham se alimentado em plantações
pulverizadas com agrotóxicos. Os exames
laboratoriais para atestar a causa da morte desses animais ainda não foram
realizados. "Mas é quase certo que tenha sido por conta dos herbicidas",
acredita Leandro.
Agrotóxicos e transgênicos são questões mais recentes. No passado, a
invasão da bicharada em terras particulares terminava com veados, emas,
tamanduás, antas e queixadas mortos a tiros. As onças, que vez ou outra
atacam os bois, também entravam na linha de fogo. Hoje, a história é
outra. Os pesquisadores mostraram que os danos provocados pelos animais à
lavoura e ao gado podem ser previstos e controlados. Por isso, o
fazendeiro Clarito Carrijo não se incomodou em ver um veado comendo brotos
de soja em sua plantação. O que o incomodou foi a câmera da nossa equipe
de reportagem apontada para o tal veado. Pensando tratar-se de uma arma,
vociferou: "Se você atirar no bicho, eu denuncio ao Ibama". Assim como
Carrijo, os donos das propriedades que cercam o Parque Nacional das Emas
demonstram admirável preocupação com a proteção da vida selvagem.
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No final do dia, o pôr-do-sol enche a paisagem de
cores |
Outra boa notícia é apresença de cientistas. Em poucos parques
nacionais há tantos pesquisadores em ação. Estudos com veados, tamanduás,
onças, insetos e cobras caminham a passos largos. A pesquisa sobre
onça-pintada, por exemplo, registrou um fato inédito na vida familiar do
bicho: um pai matou os próprios filhotes. O biólogo Alexandre Berndt, por
sua vez, observou lutas entre fêmeas de veado-campeiro. "A vencedora fica
mais respeitada no grupo. Até então, não sabíamos que isso acontecia", diz
Berndt. Os cientistas do Projeto Tamanduá-Bandeira projetaram um
rádio-colar com GPS - aparelho de localização por satélite -, que se
mostrou mais eficiente e econômico que os vendidos no mercado. As boas
novas reforçam a tese de muitos ambientalistas, segundo a qual a presença
de pesquisadores de diferentes áreas é fundamental para a conservação das
unidades de preservação ambiental. Tudo leva a crer que boas notícias
continuarão a chegar do Parque Nacional das Emas.
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O terror dos fazendeiros A
queixada (foto) é o único animal que ainda incomoda os fazendeiros
da região. Alguns produtores de soja reclamam de já ter perdido até
50% da safra para os bichos. O problema é que as queixadas entram
nas plantações e passam semanas ou até meses devorando tudo. A única
saída dos fazendeiros era matar os animais. Não é mais assim. As
informações colhidas pela equipe da bióloga Anah Jácomo permitiram a
implantação de um plano de manejo. Após dimensionar o estrago real
causado pelos animais, alguns foram capturados e receberam um
rádio-colar. "Assim, nós monitoramos todos os passos do bicho",
observa. Em certos casos, ficou comprovado que o grupo - alguns com
mais de 150 queixadas - estava grande demais e que era esse o motivo
das invasões. Os pesquisadores resolveram diminuir esses grupos. Os
animais retirados passam a ser criados em cativeiros particulares
para, mais tarde, terem a carne comercializada. O dinheiro da venda
vai para os fazendeiros que aderirem ao projeto, como compensação
pelas perdas na lavoura. Todos os animais desse programa vivem fora
do parque. O plano incomoda alguns ambientalistas, mas a bióloga
Anah Jácomo argumenta: "Entre ter centenas de queixadas exterminadas
pelos fazendeiros e sacrificar alguns animais para garantir a
sobrevivência da espécie na região, a segunda alternativa é bem
melhor". |
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ilha de vida
A
preocupação com a conservação do cerrado brasileiro é
cientificamente justificável. De acordo com um estudo da
Conservation International, uma das maiores ONGs ambientalistas do
mundo, o cerrado é um dos lugares mais ameaçados e que possui maior
biodiversidade do planeta. São mais de 160 espécies de mamíferos,
150 de anfíbios, 120 de répteis, 837 de aves e cerca de 10 mil de
plantas. O mapa mostra como estão distribuídos alguns dos animais
que vivem no Parque Nacional das Emas e quantos bichos há de algumas
espécies.
Ema | é a maior ave brasileira, chegando a ultrapassar
1,60 metro de altura. Não sabe voar, mas corre muito bem, podendo
chegar a 40 km/h. As estimativas indicam que existem cerca de 3 500
emas no parque.
Veado-campeiro | são mais de 1 200 indivíduos.
Alimenta-se de algumas flores, cogumelos, frutas e brotos. É
comum ver o bicho comendo grãos de soja e de milho nas fazendas.
Arara | não há números certos, mas estima-se que mais de 5
mil indivíduos vivam no parque. Logo após a colheita, é comum ver
bandos com mais de 20 aves se alimentando do que sobrou das
plantações de soja.
Anta | é o maior mamífero do parque, chegando a pesar até
200 kg. A população é de 380 animais.
Tamanduá | é quase cego e surdo, mas, em compensação, tem
ótimo olfato. Pode sentir o cheiro de uma presa ou de um predador a
dezenas de metros de distância. São cerca de 400 indivíduos no
parque.
Queixada | cerca de 1 300 bichos vivem no parque. Anda
sempre em grupos, alguns com mais de 150 indivíduos.
Lobo-guará | é uma das espécies da fauna brasileira
ameaçadas de extinção. Há apenas 60 animais em todo o parque.
Cobras | mais de 50 espécies vivem no Parque das Emas. A
maior é a sucuri, que pode ultrapassar os 7 metros de comprimento. A
jararaca é a que tem a maior população: mais de 1 milhão.
Onça | é o maior e mais perigoso predador da região.
São cerca de 60 onças vivendo no parque, 20 delas pintadas e 40
pardas. Antas e queixadas são suas presas preferidas.
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G U I A D A T E R
R A
como chegar Saindo de Goiânia, são pouco mais de 400 km
pela BR-060. O acesso ao parque é feito pela cidade de Mineiros. O
Ibama cobra 3 reais por visitante. Informações: (64)
634-1704.
onde ficar O parque não hospeda turistas.
Uma boa dica é a Fazenda Santa Amélia, (64) 634-1380, a menos de 30
km dali.
quando ir A época de seca, junho a agosto, é
ideal para ver os animais. De dezembro a março, chove muito e os
bichos aparecem menos.
dica do autor "Um bom guia é imprescindível para você
conhecer a região. O Edmar pode ser encontrado no Ibama e cobra
diária de 50 reais do grupo." klester
cavalcanti |
*Matéria publicada na edição #133 da revista Os Caminhos da
Terra.

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