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Cercada de extensas lavouras por todos os lados. A cidade de Chapadão do Céu, a 480 quilômetros de Goiânia, já nasceu assim, em 1982: ilhada em meio às plantações existentes, a maioria de soja. Em alguns pontos, lavouras estão a menos de 100 metros de casas. A cidade tem 3,2 mil moradores e, com a população da zona rural, o município alcança 4,8 mil habitantes, espalhados em 250 mil hectares de área. É uma proximidade tão intensa entre lavoura e vida urbana que impressiona à primeira vista quem vai à cidade. Chapadão do Céu fica no extremo Sudoeste goiano, na divisa de Goiás com o Mato Grosso do Sul, onde o Parque Nacional das Emas surge como um oásis numa região marcada pela escassez de áreas verdes e por uma agricultura com força de ciclone, sustentada num solo vermelho de textura argilosa e areias quartzozas. Se é dia de vento forte, coisa comum nos chapadões brasileiros, os moradores ficam sensivelmente expostos à aplicação de agrotóxicos que combatem as pragas das culturas de soja, milho, girassol e algodão, as mais comuns na região. E essa borrifação pode chegar à média de seis aplicações anuais de diferentes defensivos, entre safras e safrinhas. Dados da Secretaria de Planejamento de Chapadão do Céu indicam o município como a maior arrecadação per capita de Goiás, fruto de uma economia 80% centrada na agricultura. Conciliar a vocação para tanta produtividade com as condições de vida da população, contudo, se transformou em verdadeiro desafio ao município, emancipado há apenas 12 anos. A questão de como barrar ou reduzir a entrada de defensivos na zona urbana de Chapadão do Céu virou notícia, assunto das rodas de bate-papo e até tema nas salas de aula. Curiosamente foi assim que, em 2003, a solução surgiu, fruto de um desenho feito por um grupo de crianças entre 11 e 14 anos, alunos da Escola Municipal Dona Amélia. O objetivo era inscrever o trabalho num concurso do Ministério da Educação chamado Vamos Cuidar da Nossa Cidade. Mas o desenho acabou debatido numa conferência municipal sobre meio ambiente com mais de 800 estudantes e tomou outro rumo. O trabalho levaria a prefeitura de Chapadão do Céu a receber, um ano depois, o prêmio do Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura de Goiás (Crea) de Meio Ambiente, pela implantação do projeto, voltado ao desenvolvimento sustentável. Isso foi possível porque, na seqüência, a legislação municipal foi adaptada e o trabalho aperfeiçoado tecnicamente para depois ser implantado. Cordão Verde Protetor foi o nome dado ao trabalho, cujo primeiro esboço foi um desenho da adolescente Queila Borille Carrijo – que em 2003 tinha 12 anos –, filha de uma dona de casa e de um pedreiro. Também participaram da elaboração as colegas Izabel Carolina da Silva, 15, e Elielza Cândida Alves, 15. ¤ LEIA MAIS:
Agrotóxicos afetam saúde Antes do projeto Cordão Verde Protetor, os produtores rurais das regiões vizinhas de Chapadão do Céu eram obrigados apenas a restringir o uso de agrotóxicos aos de faixa verde para aplicações perto da zona urbana. Nessa faixa estão os produtos menos nocivos – seguidos das faixas azul, amarela e vermelha, por ordem de maior toxicidade. Alguns também tentavam evitar borrifar defensivos nos dias em que o vento estava a favor da cidade, mas essas medidas tinham pouco resultado. A estudante Elielza Cândida conta que as aplicações de defensivos nas lavouras são sentidas pelos moradores “na pele”, e no caso dela, especialmente no ar. “Casos de bronquite, como o meu, são freqüentes”, relata. Dados da Secretaria de Saúde de Chapadão do Céu confirmam que o aumento do índice de ocorrências de diarréia no município, entre janeiro e julho, e de problemas respiratórios, entre julho e setembro, são associáveis à aplicação mais intensa de determinados defensivos. Conforme o agrotóxico, podem ocorrer lesões hepáticas e renais, problemas neurológicos, fibrose pulmonar, alterações genéticas e até câncer. Os casos notificados de intoxicação por agrotóxicos, computados em Chapadão do Céu nos últimos três anos, não passaram de 23. A explicação para o índice ser baixo em uma área de aplicação de defensivos em larga escala – próxima de habitações humanas – é atribuída à pequena notificação. Lazer Do ponto de vista de custo, o Cordão Verde precisou de pouco investimento da prefeitura, considerando o baixo preço das mudas (20 centavos), ultrapassando, no total, pouco mais de R$ 1 mil, com o frete. O município também ganhou parte das mudas e contou com outras produzidas por um programa ambiental da cidade ligado a famílias carentes. A meta é obter a liberação das áreas pelos donos dos loteamentos, prevista em lei, e continuar contando com preços baixos para manter o plantio de mais árvores.
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