Carla
Borges
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Um método inédito
no Brasil de contagem e monitoramento de animais vem sendo
utilizado com resultados impressionantes no Parque Nacional das
Emas, na Região Sudoeste do Estado: 90 "armadilhas"
fotográficas foram espalhadas por uma região de aproximadamente
200 mil hectares, abrangendo a área total do parque (132 mil
hectares), seu entorno, o corredor natural, Em 240.740 horas de
amostragem, nos últimos 18 meses, as armadilhas já capturaram
2.877 imagens. As fotografias permitiram a contagem de 20 onças-pintadas
– de uma população estimada de 45 –, 40 onças-pardas, 60
lobos-guarás, cerca de 600 antas e 1,2 mil veados-campeiros.
O método consiste
em espalhar as "armadilhas" fotográficas pela região
de estudo, com maior ênfase para a área interna do parque. As câmeras
são disparadas toda vez que o sensor de infravermelho da câmera
for interrompido por um bicho que passar em frente à lente. O
animal "capturado" em filme passa a fazer parte de um
catálogo de registro.
O trabalho é
realizado pelo casal de biólogos goianos Leandro Silveira e Anah
Tereza de Almeida Jácomo, ambos pesquisadores do Fundo para a
Conservação da Onça-Pintada e do Instituto Pró-Carnívoros,
mestres em Ecologia pela Universidade Federal de Goiás (UFG) e
doutorandos pela Universidade de Brasília (UnB). Eles estudam os
mamíferos carnívoros do Parque das Emas desde 1994 e nos dois últimos
anos vêm concentrando as pesquisas nas onças-pintadas,
predadores do topo da cadeia alimentar, principais responsáveis
por manter o equilíbrio da comunidade de animais onde vivem, pois
se alimentam e regulam os tamanhos das populações de suas
presas. "O Parque das Emas é um tesouro do cerrado
brasileiro e a onça-pintada é sua jóia mais preciosa",
define Silveira.
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Censo
Os biólogos estão realizando um verdadeiro
censo de onças-pintadas e onças-pardas no Parque Nacional das
Emas. "Para animais como as onças-pintadas, que têm padrões
de malha únicos, que não se repetem de um animal para outro, é
possível identificar cada indivíduo diferente, pois suas manchas
na pele funcionam como uma impressão digital", explica
Leandro Silveira. Já em relação às onças-pardas, os biólogos
procuram evidências distintas de cada indivíduo, como marcas
naturais e cicatrizes.
Com esse método
eficiente, eles já concluíram parte da contagem e da avaliação
das onças. "O projeto de monitoramento com câmeras deve ser
a longo prazo, por, no mínimo, dez anos", defende Anah Jácomo.
O monitoramento pretende revelar se a população de onças está
diminuindo, aumentando ou se mantendo estável, conhecer os
fatores que influenciam seu comportamento e o grau de ameaça a
que elas estão expostas. "No Parque das Emas, está a última
população de onças-pintadas dos campos ou chapadas de cerrado.
Por causa das lavouras, elas acabaram acuadas em áreas de cerrado
fechado", justifica Leandro Silveira.
Radiotelemetria
Das 23 espécies de mamíferos carnívoros que
ocorrem no Brasil, 18 já foram registradas no Parque das Emas
pelos pesquisadores, das quais 7 fazem parte da lista oficial do
Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais
Renováveis (Ibama) de animais ameaçados de extinção. Alguns
deles, como o lobo-guará, onça-pintada, onça-parda e
cachorro-do-mato, vêm sendo monitorados por meio da técnica de
radiotelemetria, que consiste na colocação de coleiras com
radiotransmissores. Atualmente, dez onças do Parque das Emas estão
com as coleiras de radiotelemetria. "Estamos observando por
onde elas andam e para onde vão quando saem dos limites do
parque", explica Leandro Silveira.
Os dois métodos são
complementares e, pelo que já observou Silveira, os dados
preliminares indicam que a população de onças está chegando ao
limite de saturação da área, por causa do isolamento. O parque
está praticamente todo cercado por lavouras. "As onças se
restringem às áreas com vegetação natural, não usam as
lavouras para se locomover. São os animais com maior exigência
ecológica", ressalta Anah Jácomo. A preocupação é com a
preservação de áreas que servem de corredores ecológicos, por
onde os felinos do Parque das Emas possam sair para colonizar
novas áreas e que também sirvam de porta de entrada para outros
animais. Se eles ficarem totalmente isolados, podem entrar em
degeneração genética e se extinguir por falta de parceiros para
acasalamento.
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Procriação
já é verificada
O biólogo Leandro
Silveira explica ser vital evitar o isolamento das onças no
Parque das Emas para afastar problemas de consangüinidade.
"Se houver cruzamento só entre parentes, por causa do
isolamento, manifesta-se a consangüinidade e podem acontecer
problemas como malformação, infertilidade e mutação genética."
Inicialmente, pelo que já observaram, os biólogos adiantam que
está acontecendo o fluxo entre os animais. Por causa dessa
preocupação, foram instaladas "armadilhas" eletrônicas
também no entorno do parque e no corredor ecológico utilizado
pelas onças – eixo do Rio Taquari, das nascentes até Coxim, no
Mato Grosso do Sul, já no Pantanal.
Entre as dez onças
capturadas e equipadas com colares de radiotelemetria, um casal
jovem foi monitorado, o que animou os pesquisadores porque
significa que a reserva tem servido de refúgio para procriação
das onças da região. "A onça é o símbolo maior de um
ambiente saudável. Sua presença indica que as espécies abaixo
na cadeia alimentar estão proporcionalmente ajustadas em seus
lugares", ressalta Leandro Silveira.
Relatórios anuais
sobre o trabalho são entregues ao Ibama. O Projeto Carnívoros
foi financiado, no último ano, pelo Fundo Nacional do Meio
Ambiente, Conservation International do Brasil-CI, Centro Nacional
de Pesquisa para a Conservação de Predadores Naturais (Cenap),
Ibama e Monsanto.
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MEIO
AMBIENTE
Parque quer ampliar áreas
de visitação
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Expectativa
é que novo plano de manejo do Parque das Emas, que será
apreciado dia 21, aumente locais de acesso e incremente turismo.
Depois de uma longa
espera, o novo plano de manejo do Parque Nacional das Emas, no
Sudoeste goiano (veja quadro) finalmente sairá do papel. No próximo
dia 21 haverá uma reunião do Conselho Consultivo do Parque,
formado por representantes de 22 instituições oficiais e não-governamentais,
para apreciar a proposta, que vem sendo elaborada em várias reuniões
desde abril. O plano de manejo atual é de 1980 e é considerado
obsoleto. Entre outras deficiências, ele não fala, por exemplo,
em ecoturismo. A visitação na área, que é patrimônio natural
da humanidade desde dezembro de 2001, é basicamente de
pesquisadores. A média anual de visitantes não-cientistas não
ultrapassa duas centenas, segundo a direção da unidade.
"Nosso
maior problema hoje é não ter a infra-estrutura adequada para
receber visitantes. Os que vêm, saem descontentes", diz o
ex-diretor do parque, Ary Soares dos Santos. Ele explica que
atualmente as áreas de visitação são extremamente restritas,
limitação imposta pelo plano de manejo. "A área atual de
visita foi estabelecida por meio de acordos entre a chefia do
parque e o Ibama", lembra Ary Soares.
Outra dificuldade
apontada para a conquista de mais visitantes é o quantitativo
reduzido de funcionários, embora o ex-diretor destaque que o número
mais do que triplicou nos últimos três anos, passando de três
para dez funcionários. Como a área total do parque é de 131.868
hectares, a média é de mais de 13 mil hectares por servidor.
Ary Soares ressalta
que o plano de manejo é uma espécie de constituição do parque,
que reúne todas as regras e determina o que deve ser feito para
sua conservação e exploração. A elaboração do plano está
sendo feita pelo Conselho Consultivo do Parque, criado no final de
2001, na mesma época da concessão do título de patrimônio pela
Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e
a Cultura (Unesco). O conselho não delibera, mas participa de
forma ativa no dia-a-dia do parque, tornando-se uma referência e
elaborando sugestões. (Carla Borges)
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CONHECENDO E
PROTEGENDO A FAUNA DO CERRADO
Confira abaixo algumas informações
sobre a onça-pintada e dados
sobre os dois parques nacionais do Estado, com suas
principais atrações:
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Onça-pintada
- Carnívoro da família Felidae, com nome científico de
Panthera onsa. Atinge 1,20 metro de comprimento sem a cauda, que mede 60
centímetros. A altura média é de 85 cm. A cor é amarelo-ruiva, com
cinco séries de rosetas pretas nos lados; em parte essas rosetas têm no
centro uma pequena mancha preta. É o maior predador natural terrestre do
Brasil. Ocupa o topo da cadeia alimentar (nenhum outro animal come a onça).
É altamente exigente em relação à qualidade de seu hábitat e está na
lista oficial do Ibama como ameaçada de extinção. É uma das espécies
de mamíferos mais ameaçadas do Brasil. Tem hábitos predominantemente
noturnos, depende de grandes áreas para sobreviver e alimenta-se de
antas, capivaras, queixadas e veados, entre outros bichos. A onça-preta
é a mesma onça-pintada: a variação de cor é causada pelo melanismo.
(Fonte: Rodolpho von Ihering, em Dicionário dos Animais do Brasil,
Editora Difel) |