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foto: Leandro Silveira Encontro esperado PARQUE DAS EMAS, GOIÁS O fotógrafo paulista Adriano Gambarini acalentava o sonho de documentar uma onça-pintada desde o tempo em que viveu no Pantanal — ele costumava cavalgar com um velho caçador índio em busca do animal. Até que foi convidado para acompanhar um grupo de biólogos e veterinários no Parque Nacional das Emas, onde produziu o trabalho mais importante da sua carreira. "A sensação de ver as onças na natureza transita entre o êxtase e o medo", diz.
CAÇADORES DO BEM Um grupo de pesquisadores aventura-se pelo parque das Emas, em Goiás, para salvar as raras onças-pintadas do cerrado brasileiro O sol ainda nem havia nascido e a madrugada abafada já prenunciava o calor do novo dia. Os latidos esparsos dos cães aglomerados num improvisado canil atrás da casa também não deixavam ninguém dormir - ao contrário, só aumentavam nossa excitação. Afinal, não é sempre que se está prestes a ficar frente a frente com o mais assustador animal da fauna brasileira. A missão de meu grupo: rastrear onças-pintadas. E correr muito atrás dos animais. O assanhamento dos cães alerta: é hora de se levantar. São 4 horas da manhã. O cenário é o Parque Nacional das Emas, uma reserva de cerrado no sudoeste de Goiás. Apesar das queimadas periódicas e da expansão agrícola, a região ainda abriga muitos animais. Tanto que, em 1994, os biólogos Leandro Silveira e Anah Teresa de Almeida Jácomo detectaram ali uma desconhecida população de onças-pintadas. Com apoio da Pró-Carnívoros, uma associação de pesquisa e preservação de mamíferos, eles vêm monitorando as onças por um sistema de coleiras com transmissores rastreados por rádio e satélite. Nessa nova expedição, teriam ainda a ajuda de Valdivino Corrêia e Ederson Viaro, ex-caçadores que hoje usam sua experiência no campo para salvar esses grandes felinos. O plano era a captura de dois filhotes que estavam encoleirados havia apenas três meses. As coleiras precisam ser trocadas periodicamente até que os animais atinjam a fase adulta, quando então terão sinalizadores permanentes. Há um ano e meio os pesquisadores acompanham também os passos de duas onças adultas numa extensão de cerca de 40 quilômetros além dos limites do parque nacional, sempre ao longo do vale do rio Corrente, importante drenagem da região. Esse percurso habitual dos animais, em busca de comida e parceiros para procriar, confirma a idéia de que fechar uma área com o objetivo de preservá-la pode ser igualmente danoso - o isolamento é fatal para certas espécies. É preciso conservar as passagens entre regiões que mantenham as mesmas condições ambientais, formando um "corredor de fauna". Os biólogos estimam que haja cerca de 12 onças-pintadas no parque e nos arredores. Se ficarem isoladas, elas estarão condenadas à extinção por consangüinidade em 30 ou 40 anos. A reprodução dentro de um grupo fechado causa degeneração genética. A presença dos felinos funciona também como um termômetro do equilíbrio ecológico, um símbolo de qualidade ambiental. "Se houver uma onça-pintada vivendo numa região, é sinal de que ela está ainda pouco alterada", explica Leandro, enquanto dirige a pickup pelas estradas que cortam o parque. Resolvi seguir na caçamba do veículo, onde Anah estava atenta aos sinais da coleira do filhote macho. Captados e decodificados em bips, eles indicam se o animal está parado ou em trânsito - se morrerem, o sinal também se altera. E o animal, naquele instante, devia estar a uns 2 quilômetros de nós. Assim, os mateiros retiraram os 20 cães das camionetes e começaram a atá-los em duplas. Todos usavam uma coleira feita de couro com dezenas de pregos expostos - um adereço parecido com um colar punk e que serve como proteção contra os ataques da onça. Ansiosos, avançamos mato adentro no instante em que o sol começava a despontar. As onças preferem viver numa área do parque que nada tem a ver com a imagem habitual de um cerrado - de árvores retorcidas e cupinzeiros. Elas habitam uma zona alagada, com extensões de brejo, mata e buritizais. À noite, sobem para os campos para caçar. Leandro, com a antena de captação de sinais, seguia na frente. Caminhamos por cerca de 3 horas até que Valdivino encontrou uma pegada recente. Os cães farejaram o local e partiram em disparada. Andamos por horas a fio, ora num charco, ora em mato fechado, ora no rio Jacuba, que atravessamos três vezes com água na altura do peito. A maratona só foi interrompida no final da tarde, quando enfim decidimos descansar. A onça, no primeiro dia, deu um baile em todos nós. Ao redor da fogueira do acampamento, discutimos a maior ameaça aos felinos atualmente, a construção da Usina Hidrelétrica de Itumirim, a 90 quilômetros do parque. Se a obra for realizada, criará um lago que vai inundar uma área de 57 quilômetros quadrados do hábitat das onças-pintadas e suas presas — como o cervo-do-pantanal, o queixada, a anta e a capivara. Até agora, com a confirmação da presença das onças fora dos limites do parque, os conservacionistas têm alertado o Ibama sobre o impacto que a obra pode causar no parque. Com isso vêm impedindo o seu início. Mas ninguém pode prever até quando. No dia seguinte, quando tentávamos nos desvencilhar da vegetação emaranhada, deparamos com um dos maiores perigos do cerrado, um enxame de abelhas. Não me lembro exatamente de quanto tempo corremos agachados, buscando brechas nos cipós e bambus espinhentos. Quando alcançamos o descampado, minha cabeça e meus braços ardiam de tantas picadas. E nada das onças. No fim da tarde resolvemos dar uma última busca. Imaginávamos que, assim como nós, os filhotes também deviam estar cansados. Foi quando o latido solitário de um cão nos encheu de esperança. Alguém gritou: "Ela está acuada. Está acuada!" Encontramos o filhote macho escondido num pequeno buraco de erosão. O veterinário Ronaldo Gonçalves Morato preparou o dardo com tranqüilizante calculando que a pequena onça, de 10 meses, pesasse cerca de 50 quilos. O tiro foi certeiro e impôs 2 horas de sono à fera - tempo que os pesquisadores usaram para o trabalho de biometria. Pesaram o animal, mediram o tamanho das unhas, das patas, do corpo e dos dentes. Retiraram sangue, checaram a pulsação e finalmente trocaram a coleira sinalizadora. Já era noite quando o filhote despertou e seguiu calmo para a escuridão do cerrado. Descemos para a planície no outro dia e Leandro resolveu margear os buritizais, onde captava bips cada vez mais fortes. Quando já não suportava mais a crescente intensidade do som, Anah viu no alto de uma árvore a pequena fêmea, acuada. Seu olhar assustado, porém, não a impediu de avançar contra Valdivino, que tentava subir na árvore em busca de uma melhor posição para atirar o dardo. E mais uma vez o tiro do ex-caçador foi certeiro. Diante da fera adormecida, Leandro e Anah me explicaram um pouco mais sobre a sua natureza. A cada dois dias, a onça-mãe caça um tamanduá-bandeira ou um outro animal. Arrasta sua vítima para uma área segura, deixa os filhotes se alimentando e parte em busca de uma nova presa para si. Normalmente esse banquete dura uma noite inteira. O hábito é comum até os filhotes atingirem 4 ou 5 meses, época em que começam a acompanhar a mãe e aprendem a caçar. A maior lição, porém, fica por conta da evolução natural, que forçará os animais a respeitarem o território alheio - inclusive o da mãe - e a buscar sua própria área para viver. Enquanto esse dia não chega, os pesquisadores vão continuar atentos aos passos dessa jovem fêmea do parque das Emas. Ela desperta do efeito anestésico e, devagar, caminha para a liberdade até virar uma sombra sob os arbustos verdes da encosta. A aventura entre as onças
do cerrado está em www.nationalgeographicBR.com.br/0105
Fonte: Revista National Geographic Brasil / Maio 2001
Texto e foto por Adriano Gambarini
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