Milheto
O
protetor do cerrado
Avanço do plantio direto no Brasil
Central abriu as portas da região para a gramínea, utilizada
como cobertura de solo e também como forrageira
Por Janice
Kiss/Fotos Silvio Ferreira
Na
história recente do país, o cerrado do Brasil Central passou
por um dos processos de mudança mais radicais. Em menos de 30
anos, o que era o domínio inquestionável de emas e tatus
acabou se transformando em área de grande produção de grãos,
cultivados segundo as mais modernas tecnologias de plantio. O
avanço acelerado da soja, que abriu caminho para a posterior
entrada do algodão na região, teve importância fundamental
nesse processo.
Mas a adoção maciça do sistema de
plantio direto nos últimos dez anos, utilizado no manejo das
duas culturas, acabou introduzindo no cerrado uma gramínea
africana milenar, o milheto, que veio a se tornar a principal
opção de cobertura de solo no inverno.
Apesar de
a cultura não constar das pesquisas estatísticas do IBGE que
medem o desempenho da produção agrícola do país, o agrônomo
Julio Salton, pesquisador da Embrapa Agropecuária Oeste, de
Dourados, MS, afirma que ela já ocupa cerca de 800 mil
hectares, nos dois Mato Grossos nos meses de seca. "Calculamos
que o crescimento do milheto nos últimos dez anos seja de
cerca de 40%, acompanhando o ritmo da soja e do algodão",
acrescenta Camilo Vieira, colega de Salton.
Na
fronteira entre Mato Grosso do Sul e Goiás, no início da
década de 70 os cerca de 300 mil hectares da região dos
Chapadões do Sul, do Baús e do Céu eram uma vasta área de
cerrado fechado. "Não tinha cidade, não tinha estrada, não
tinha gente, só gado selvagem", conta o gaúcho Elo Loeff.
Apesar desse isolamento, em 1972Loeff resolveu se aventurar na
compra de 6.300 hectares próximos ao local onde mais tarde
nasceu o município de Chapadão do Sul.
"Se
fôssemos botar os prós e os contras econômicos na ponta do
lápis, não teríamos plantado sequer um pezinho de capim
naquele fim de mundo", diz Evandro Loeff, o filho mais velho
de Elo, que hoje toca os negócios da família com seus três
irmãos. Em 1974, os Loeff começaram a abrir o cerradão com o
cultivo de arroz de sequeiro. Como essa primeira experiência
foi um sucesso, em 1977 resolveram fazer alguns experimentos
com soja, e a partir da década de 80 a cultura
deslanchou.
O plantio
direto então praticado no Rio Grande do Sul passou a ser
testado também no cerrado. "Para a cobertura de solo,
experimentamos algumas gramíneas utilizadas no Sul, como a
aveia, mas, devido às condições climáticas do cerrado, onde
temos um longo período de seca, o melhor resultado foi
alcançado com o milheto. Fomos uns dos primeiros a plantá-lo
nesta região", diz Evandro.
 O milheto ganhou o cerrado
através de pioneiros como Elo
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Quando, em
1990, o sistema de plantio direto foi definitivamente adotado
no manejo da cultura da soja na região dos três chapadões, o
milheto já havia consolidado a sua hegemonia enquanto opção
para cobertura de solo e produção de palhada. Segundo o
agrônomo Paulino Andrade, pesquisador da Embrapa Agropecuária
Oeste cedido à recém-criada Fundação Chapadão (órgão de
pesquisa que atende a produtores e empresas de insumos em
Chapadão do Sul e Costa Rica, MS, e Chapadão do Céu,
GO), a
gramínea já é plantada em 40% dos 85 mil hectares de milho e
na quase totalidade dos cerca de 180 mil hectares de soja e 27
mil hectares de algodão da região.
Seu uso como
cobertura de solo no cerrado, na opinião de Evandro Loeff, é
mais vantajoso do que o plantio da safrinha, que, por conta do
clima, é muito arriscado e tem um custo bastante alto. "Com o
milheto, o custo é basicamente o da compra das sementes, que
hoje gira em torno de 9 reais a saca de 60 quilos. Um hectare
dá até 500 quilos de semente, por isso quem tem sua própria
produção gasta pouco com esse plantio, que pode ser feito a
lanço ou em linha." No Brasil Central, o plantio ocorre logo
após a colheita da safra, entre os meses de fevereiro e março,
aproveitando-se as últimas chuvas do verão para impulsionar o
brotamento das plantas.
Em agosto,
o ciclo do milheto estará se fechando com o amadurecimento das
sementes, que podem ser colhidas para armazenagem ou venda.
Mas muitos produtores optam por deixar que as sementes
rebrotem com as primeiras chuvas de verão, para que ocorra
nova formação de massa verde até a época do plantio da próxima
cultura. Assim, em agosto ou novembro, faz-se outra dessecação
da gramínea, seguindo-se o plantio direto da soja ou do
algodão sobre a palhada.
Uma das vantagens do milheto
é a lenta decomposição de sua palhada, que vai liberando
gradativamente todos os nutrientes absorvidos pela planta,
tornando-os disponíveis para a próxima safra. Tanto é que a
Fundação Chapadão está desenvolvendo uma pesquisa no sentido
de aplicar na gramínea cerca de 25% do adubo destinado à
cultura principal.
"Ao darmos
para o milheto parte do adubo exigido por uma cultura como o
algodão, por exemplo, estaremos diminuindo o impacto ambiental
do manejo dos agroquímicos, que normalmente ocorre de forma
concentrada e agressiva", explicam os técnicos da fundação.
Assim, além de evitar maiores danos ao meio ambiente, o
milheto adubado desenvolve mais massa verde, protege melhor o
solo e diminui as perdas de adubo, que ocorrem tanto através
da ação das chuvas quanto da evaporação.
Apesar da
grande rusticidade que possibilitou a sua perfeita adaptação
às condições de clima do cerrado, alguns produtores vêm
notando um definhamento da planta nos últimos anos. Para os
pesquisadores da Embrapa, a razão é evidente. "Como o milheto
produz cerca de 500 quilos de semente por hectare, muitos
produtores passam anos seguidos colhendo e replantando a
própria semente. O problema é que, nesse processo, ocorre uma
série de cruzamentos com outras gramíneas, como a vassoura ou
o sorgo, provocando a degeneração genética do milheto",
explica Vieira.
Para o
agrônomo Luís Albino Bonamigo, dono da empresa Sementes
Bonamigo, o enfraquecimento genético e a decorrente queda de
produtividade é preocupante porque acaba prejudicando a
"imagem" da gramínea. "Já vi muito produtor pensando em
desistir do milheto porque seu desempenho ficou muito abaixo
do esperado. Se eles se dispusessem a adquirir sementes
certificadas de tempos em tempos, não teriam esse problema."
Bonamigo desenvolveu duas variedades de sementes, a BN1 e a
BN2, que, segundo pesquisadores e produtores, estão entre as
melhores do mundo.
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