SAFÁRI COM JEITINHO BRASILEIRO
A diversidade da fauna faz frente à ‘concorrência’ africana; difícil é
ver uma onça
CHAPADÃO DO CÉU – De cima de uma Kombi, o guia vasculha as redondezas com
o binóculo que ganhou de presente de um turista americano. “Ahá, eu
sabia!”, diz, poucos minutos depois. “Ali está ele”, indica, com o dedo
em riste, a direção em que chafurda um tamanduá-bandeira, em meio à área
alagadiça semelhante a um pântano. É para lá que seguem os visitantes,
enfiando o pé na lama, com água na altura dos joelhos, para tentar flagrar o
animal em seu hábitat. Experiência digna dos melhores safáris africanos.
- Talvez seja isso. Talvez, a mais fiel interpretação de um safári, à moda
brasileira, tenha lugar no Parque Nacional das Emas, em Goiás. Fato que pode
torná-lo mais interessante do que desmerecê-lo. Na reserva reconhecida pela
Unesco como Patrimônio Natural da Humanidade encontram-se todos os matizes do
cerrado, o domínio nativo brasileiro que mais se assemelha às savanas
africanas. Uma biodiversidade de fazer frente a qualquer ecossistema.
- Tudo começa nos caminhos que cortam o extremo oeste de Goiás rumo à área
protegida, com 1.318 quilômetros quadrados de cerrado, cercado de fazendas por
todos os lados. De olho no mapa, o Parque Nacional surge feito uma ilha em que,
no lugar de água, cultivos a perder de vista definem seus limites. Por conta
disso, já na estrada avistam-se emas e veados-campeiros alimentando-se de soja
e milho nas propriedades particulares, além de aves em profusão –
especialmente ao nascer do sol.
- Fragilidade – O ritmo da natureza tem de ser respeitado: quanto
mais cedo se chega ao Parque das Emas, mais animais se vê. E as possibilidades
são muitas: sabe-se, por exemplo, que a reserva protege um dos ecossistemas
mais frágeis do planeta, que, em contrapartida, conserva uma biodiversidade
enorme: 10 mil espécies de plantas, 840 de aves, 160 de mamíferos, 150 de anfíbios
e 120 de répteis. Tamanha diversidade, por si só, já garante o interesse turístico.
- Edmar Paes Barbosa, de 47 anos, sabe disso. Melhor do que ninguém, é capaz
de identificar os mais discretos movimentos em meio à vegetação. Trabalha há
três anos como guia no Parque das Emas e joga limpo com os visitantes. “Se não
fizerem silêncio, fica difícil ver os animais”, adverte. O curioso é que,
apesar disso ser uma verdade incontestável, ele a diz ao volante de um ruidoso
veículo, que, a cada freada, faz a espinha arrepiar.
- Após um “baile” do tamanduá – animal quase cego e surdo, cujo olfato
é extremamente apurado –, o safári deixa o Repouso do Cabeção em direção
ao Mirante do Avoador. É o melhor ponto para se avistar onças – nas Emas, há
duas espécies, a pintada e a parda. Meia hora de observação, com o binóculo
importado, não resolvem. Nada de a bicha mostrar a cara. No retorno, uma parada
na Lagoa da Capivara, um dos belos cartões-postais do Parque Nacional.
- Dali, de fato, a vista do Rio Formoso é privilegiada. O único porém diz
respeito à possível presença de sucuris, hábeis nadadoras e uma das
serpentes mais pesadas do mundo. De repente, um ruído forte na mata assusta. No
pensamento, a certeza de dar de cara com o temido anfíbio. Nada disso: uma
anta, o maior mamífero do Parque das Emas, havia se embrenhado na vegetação.
Só Edmar a viu...
- Pegada – Situações como essa acendem a vontade de ver mais e mais
animais. Que venha o que vier: de preferência, uma sucuri, ou melhor, uma onça.
Talvez isso só ocorra porque, no fundo, se sabe que as chances disso acontecer
são reduzidas. Bem diferente dos safáris africanos, em que o grande desafio é
flagrar o Big Five no mesmo percurso, os cinco “objetos do desejo” das
savanas: búfalo, elefante, leão, leopardo e rinoceronte.
- Edmar pisa seco no freio. Ninguém entende nada. Ele estica a cabeça para
fora da janela e abre um sorriso de boca inteira. Havia encontrado pegadas de onça.
Todos descem e observam, intrigados. Trata-se, segundo Edmar, de uma onça-parda,
“bem grande”, que provavelmente deixara há pouco o local.
- Há apenas 50 exemplares dos maiores felinos brasileiros no Parque Nacional,
entre pintadas e pardas. E, atualmente, está em curso um projeto de estudo
acerca delas, da ONG Pró-Carnívoros. Cientistas têm monitorado o
comportamento dos animais e, entre outras descobertas, souberam que um macho
matou um filhote. “Dizem que para copular de novo”, conta o guia.
- Cientistas – As pesquisas são outro aspecto importante no Parque
das Emas. Embora ainda sem infra-estrutura para turismo – não há centro de
visitantes, tampouco restaurante –, existem núcleos de pesquisa dedicados a
diferentes temas: veado-campeiro, tamanduá-bandeira, serpentes e onças, entre
outros animais, são estudados com afinco.
“Já sabemos, por exemplo, que o
sistema de aceiro permite sobra de alimentos o ano inteiro”, diz o biólogo
Alexandre Berndt, de 32 anos. Ele se refere ao projeto Preve Fogo, em que
equipes do Ibama promovem queimadas controladas para garantir o ciclo natural
das diversas espécies componentes desse intrincado mosaico da vida que, somente
agora, abre oficialmente as portas aos turistas. (F.V.)
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Parque Nacional das Emas – Aberto todos os dias, das 7 às 17 horas.
Ingressos: R$ 3,00 por pessoa. Informações: (0--64) 634-1704
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