Terça-feira, 5 de Agosto de 2003

 
outras viagens

Turismo Estadão

   
Fábio Vendrame/AE

Uma aventura no sertão de Goiás

A caminho do Parque Nacional das Emas, no extremo sudoeste do Estado, os viajantes deparam-se com a rara beleza sertaneja de Serranópolis
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viagem@estado.com.br
 


Plano de manejo está em elaboração
Uma reserva natural de rara beleza cênica
Sítio registra indícios de costumes e crenças ancestrais
Rotas independentes dão em belas cachoeiras
SAFÁRI COM JEITINHO BRASILEIRO
BIG FIVE BRASILIS

FAÇA AS MALAS

 
Onde ainda se conjuga o verbo sertanejar
Cerca de 480 quilômetros separam Goiânia de Chapadão do Céu, a porta de entrada para o zoológico a céu aberto do Parque Nacional das Emas; no meio do percurso, Serranópolis merece uma parada estratégica
Fábio Vendrame/AE
O cerrado, com paisagens de tons agrestes, acompanha os viajantes durante o tempo todo
FÁBIO VENDRAME

CHAPADÃO DO CÉU - Cena de uma estrada no sertão de Goiás: com berrante e chapelão, o boiadeiro toca 750 cabeças de gado pelo mesmo caminho de terra que leva os turistas a um recanto isolado da cidade. A poeira sobe, espessa e vermelha. Por um instante, visitantes e animais confundem-se.

Demora um pouco para a imagem recuperar a nitidez. Uns começam a fotografar.
Outros, seguem sua marcha. "É a hora do rush", brinca o guia.
Momentos depois, dissipa-se o trote regular dos bois pisando o chão de terra batida. O gado fica para trás; a poeira baixa. Após rodar cerca de 480 quilômetros a partir de Goiânia, entre trechos de terra e de asfalto, alcança-se Chapadão do Céu, cidadezinha com menos de 4 mil habitantes e projetada para ser a porta de entrada do Parque Nacional das Emas.
Belas paisagens e cenas inusitadas acompanham os viajantes, mas não escondem o estado deplorável de alguns trechos das rodovias goianas. Os motoristas devem redobrar a atenção, para não estourarem pneus nem atropelarem os animais silvestres que cruzam as pistas inadvertidamente.
Por conta disso, a viagem pode tornar-se mais cansativa que o previsto. Nada melhor, então, do que um bom lugar para descansar e recarregar as baterias.
Perto de Chapadão do Céu, uma boa pedida é a Fazenda Santa Amélia ( 0--64-634- 1380). A diária no chalé custa R$ 120,00 por casal, com todas as refeições incluídas.
Às margens do Rio Formoso, a Santa Amélia promove passeios de barco e a cavalo, e ainda mantém um pesque-pague. O ponto forte, porém, está nas mãos de Creuza Garcia de Matos, encarregada de preparar o arroz-feijão goiano.
"Gosto de ver gente satisfeita, com a barriga cheia e o sorriso de boca inteira", diz ela.
Dali, fica fácil chegar ao Parque Nacional das Emas, mais de uma vez comparado a um zoológico a céu aberto pelos guias turísticos. De junho a setembro, quando se dá a época da seca, é o período ideal para ver animais.
Mas antes de pegar a estrada, é bom atentar-se a algumas dicas e particularidades da reserva (leia abaixo).
Pioneira - Para quem quer ir além, há uma opção ainda melhor do que seguir direto para o Parque das Emas. No caminho entre Goiânia e Chapadão do Céu, reserve três noites para Serranópolis. Com acentuado traço sertanejo, a cidade merece figurar nos melhores guias de ecoturismo do Brasil. De olho nesse potencial, a operadora FreeWay - especializada em aventura - saiu na frente e já pôs no mercado um pacote que cobre toda a região.
Não sem propósito. Na quase desconhecida Serranópolis, de 6,5 mil habitantes, o ecoturismo aparece em sítios arqueológicos, trilhas em reservas naturais, grutas, cachoeiras de tirar o fôlego e na observação de aves e de animais. E, ainda, em bons meios de hospedagem, que em nada decepcionam o viajante. Também por isso vale a pena incluir a discreta cidade num roteiro pelos caminhos sertanejos de Goiás.

Viagem feita a convite da FreeWay

 

Plano de manejo está em elaboração
Criada há mais de 40 anos, unidade de conservação ainda carece de diretrizes
Fábio Vendrame/AE

CHAPADÃO DO CÉU - Apesar do mau estado de conservação, as estradas que levam ao Parque Nacional das Emas estão bem sinalizadas ao menos no que toca à fauna silvestre. Com freqüência surgem placas para advertir os desavisados.

Aliás, é vantajoso chegar à área de preservação já ciente de algumas recomendações (veja quadro ao lado).
Criado em 1961, o Parque Nacional das Emas ainda carece de um plano de manejo para turismo. No entanto, segundo seu diretor, Gabriel Cardoso Borges, o projeto encontra-se em fase de elaboração. "Deverá estar pronto até o fim de 2004", promete. E adianta que as atividades de aventura serão uma das vertentes a serem desenvolvidas. "Queremos ampliar as opções turísticas, com a introdução do bóia-cross no Rio Formoso", exemplifica.
Borges admite que o processo poderá ser "um pouco lento". Até porque, com a verba atualmente destinada pela União ao Parque das Emas, cerca de R$ 200 mil por ano, não há muito a se fazer. "Por enquanto, é o suficiente para a manutenção", contemporiza.
Mesmo sem a estrutura adequada, o Parque das Emas recebe em média mil visitantes por ano. Já se sabe que o interesse desse público recai especialmente sobre a observação da vida selvagem, que apresenta, por exemplo, enorme potencial para o birdwatching, com aproximadamente 840 espécies de pássaros.
Há ainda o fenômeno da bioluminescência, produzido por larvas de vaga-lume que se alojam nos cupinzeiros - há milhares espalhados na reserva, alguns com mais de dois metros de altura, muitos deles em estudo. As larvas emitem luz para atrair os insetos que lhes servirão de alimento. Isso se dá na época das chuvas, entre outubro e março, período em que o Parque das Emas recebe turistas também de noite.
Enquanto não se populariza, o parque enquadra-se como destino ideal para quem não sente falta de multidão. E ainda agradece por existirem lugares assim. (F.V.)

 

Uma reserva natural de rara beleza cênica
No palco montado pela natureza, as araras são as grandes protagonistas
Fábio Vendrame/AE
No meio da caminhada surgem paredões de pedra

SERRANÓPOLIS - Duas torres naturais levantam-se em meio ao cerrado do extremo sudoeste goiano e demarcam a área preservada, de importância histórica e ecológica, em que está a Reserva Particular de Proteção Natural Pousada das Araras. As formações rochosas se distinguem na paisagem, a quilômetros de distância, desde a estrada que liga a acanhada Serranópolis, cidade rural com menos de 6 mil habitantes, ao mundo.

De rara beleza cênica, a reserva natural vive de turismo, sem abrir mão do trabalho conservacionista de importância vital para a biodiversidade do cerrado, um dos ecossistemas mais frágeis e ameaçados do planeta. Das duas, uma: se houver vaga, a melhor opção é hospedar-se em um de seus dois chalés.
Se não, há que se contentar com um dia de exploração, com caminhadas na mata e banho na piscina natural.
Sempre na companhia de um guia, as trilhas interpretativas transformam-se em aulas de biologia a céu aberto. Nativo da região e herdeiro da reserva natural, Maykil Souza Braga Ramos, de 19 anos, acompanha os grupos turísticos e explica, com propriedade, cada detalhe da fauna e da flora locais. Há quatro caminhos abertos no cerrado. O mais longo tem nível de dificuldade médio e oito quilômetros de extensão, ida e volta.
Arca de Noé - Antes de entrar na trilha, algumas precauções se fazem necessárias. Troque a bermuda por uma calça e prefira calçados resistentes. Apesar de o solo do cerrado ser essencialmente de origem arenosa, o que o torna macio para caminhadas como uma praia, as subidas e descidas até o cume dos torreões exigem disposição e um solado resistente. A calça vai bem para evitar o contato com a vegetação, invariavelmente alta e repleta de inconvenientes carrapatos.
Mas isso, de fato, não chega a comprometer a experiência. Diante da primeira formação rochosa, os turistas param e levantam o olhar: no alto, um casal de curicacas nem se incomoda com a movimentação abaixo. Mais à frente, entra-se na fresta aberta na grande rocha que vai dar na Arca de Noé - nome dado a uma pedra em forma de casco de navio presa entre dois paredões. Ali, vive a rara suindara (coruja-branca).
Espécies típicas do cerrado estão em todo o percurso. Uma infinidade de plantas, muitas com nomes e aspectos curiosos, são enumeradas pelo guia, que, de quebra, cita suas propriedades terapêuticas. Angico, barbatimão, boca-boa, coroada, gravatá, indaiá, jatobá, mangaba, maminha-cadela, mermelo, murici, pau-doce, pau-terra, peito-de-moça, pequizeiro, sucupira e unha-de-vaca são apenas alguns dos exemplos mais recorrentes de árvores e frutos da região.
Vôo escarlate - No entanto, o espetáculo maior tem como protagonistas as estridentes araras-vermelhas e araras-canindé - estas, de plumagem azul e peito amarelo. Para flagrá-las, é preciso alcançar o topo dos torreões no fim da tarde. A subida exige algum esforço, pois, neste trecho, a trilha ziguezagueia em aclive acentuado e irregular.
Do alto, a vista recompensa. Alcança os limites da verdejante reserva, em que 175 hectares são reconhecidos como patrimônio natural. Esteja atento: o guia vai identificar as araras numa das muitas árvores, assim, de repente.
Há de se estar com a câmera em punho - e se aproximar a passos lentos, em silêncio. Qualquer movimento brusco põe tudo a perder. Ariscas, alçam vôo ao notar a presença intrusa.
Fiéis ao seu par até a morte, as araras andam sempre em casal. Quando um dos dois morre, o outro mantém-se só pelo resto da vida. No máximo, faz amizade com outra dupla. Por isso, não é raro avistar três belas aves escarlates cruzando o céu juntas. Umas delas perdeu o companheiro. E, ainda que seja jovem, vai reservar-se o direito encarniçado de guardar fidelidade até o fim. (F.V.)
 
Reserva Particular de Proteção Natural Pousada das Araras - aberta de quarta-feira a domingo, das 8 às 17 horas. Entradas saem a R$ 10,00 por pessoa

 

Sítio registra indícios de costumes e crenças ancestrais
Trabalho de preservação garante acesso a área com pinturas rupestres de 11 mil anos

SERRANÓPOLIS - A simples idéia de estar num lugar que há 11 mil anos registra a presença primitiva do ser humano, por si só, já seria capaz de fascinar muita gente. Tê-lo conservado e a salvo da ação destrutiva do homem contemporâneo chega a ser um privilégio no Brasil, onde iniciativas assim encontram respaldo em poucas instituições, caso do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Na Pousada das Araras, esse trabalho de preservação resulta na sua maior herança, hoje carro-chefe do turismo local.

Toma-se uma trilha com pouco mais de um quilômetro de extensão para alcançar o sítio arqueológico Manoel Braga. Ali estão reunidas mais de 500 pinturas rupestres, com representações pictóricas antropomórficas, de animais e de figuras geométricas que atiçam a imaginação. Gravadas nas paredes da Gruta das Araras com tinta obtida da mistura entre óxido de ferro, óleo de copaíba e gorduras animal e vegetal, as figuras compõem um painel pré-histórico de valor universal.
"Cada um cria sua própria versão diante das pinturas", diz o guia nativo Sandro Marques Gontijo, de 21 anos. Objeto de estudo desde 1975, a gruta teria servido de abrigo para os homens mais ancestrais do continente, que ali registravam hábitos e, quem sabe, símbolos de crença religiosa.
Impressiona a precisão do traçado e a gama de detalhes de uma grande ave estampada numa das paredes. Tanto, que foi adotada como marca registrada da Pousada das Araras.
Sabe-se que há cerca de 40 sítios arqueológicos na região de Serranópolis.
Nenhum, no entanto, nas mesmas condições em que se encontra o das Araras.
Isso, graças ao trabalho do casal Marcos Ramos da Silva e Ivana Souza Braga Ramos - ela, herdeira direta de Manoel Braga, antigo proprietário das terras, cujo nome batiza a área tombada. "Acredita-se que cerca de 550 gerações indígenas tenham passado por ali, entre as quais os carajás e os bororos", diz Ivana, uma apaixonada pelo local.
Receptivo - Além de promover ações em prol do meio ambiente, o casal comanda há nove anos a pousada, uma das melhores - se não a melhor - opção de hospedagem da região. Há 18 leitos e dois charmosos chalés, além da área de camping para 80 pessoas. O período mais movimentado dá-se de setembro a dezembro, mas mesmo fora da alta temporada fazer reserva é obrigatório. "Por conta do nosso isolamento, precisamos estar preparados para receber as pessoas", explica Silva.
Como parte da infra-estrutura, um restaurante serve comida caseira, daquela que parece ter sido feita de mãe para filho. "Atendemos especialmente a ecoturistas, mas há gente interessada apenas na piscina natural e na nossa cozinha", diz Ivana. Aliás, não esqueça de levar máscara e snorkel para explorar a piscina natural. Repleta de lambaris, carazinhos e piaus-de-três-pintas, entre outros, seu fundo de areia branca permite ótima visibilidade.
Desde logo, algumas regras para o bom convívio devem ser observadas. Às 22 horas, apagam-se as luzes do complexo turístico. Levar uma lanterna, portanto, facilita a vida. A escuridão total - as luzes mais próximas brilham na cidade, a cerca de 20 quilômetros dali - é rompida pela Via Láctea, seguidamente rabiscada por chuvas de estrelas cadentes. Trilha sonora? Apenas o ruído regular dos grilos. (F.V.)
Pousada das Araras - diárias: R$ 120,00 chalé para duas pessoas, com pensão completa. Reservas: (0--64) 668-1054 e (0--64) 9988-8436; www.pousadadasararas.com

 

Rotas independentes dão em belas cachoeiras
Para fechar em grande estilo, abra as porteiras que surgirem no caminho e encare trilhas selvagens
Fotos Fábio Vendrame/AE
Uma corda ajuda a chegar até a base da queda-d’água de 37 m de largura e 19 m de altura

SERRANÓPOLIS – No caminho de volta para casa, guarde fôlego para fechar em grande estilo a viagem pelo sertão goiano. Na região de Serranópolis, rotas independentes, feitas com o auxílio de um guia local, levam a impressionantes cachoeiras e a sítios arqueológicos esquecidos no tempo. Vale a pena. Antes de mais nada, porém, tenha em conta o sacrifício que isso implica. Se não houver disposição para abrir caminho no peito, encarar trilhas com o mato na altura da cintura, atravessar espinheiros e escalar trechos com – e sem – auxílio de corda, então, melhor desconsiderar a esticada no roteiro.

Toda a riqueza natural contida nessas rotas alternativas fica em propriedades particulares. Não há, de fato, terra sem dono. Sendo assim, o abrir e fechar de porteiras passa a integrar o “pacote”. O Recanto da Saudade, sítio de dona Vanderci Bertini Honório Oliveira, de 45 anos, dá acesso, por exemplo, a uma grandiosa queda-d’água, com 37 metros de largura e 19 metros de altura.
Por conta do estrondoso volume, que desborda no Rio Corrente, levanta-se uma cortina d’água diante dos olhos incrédulos de quem se situa na base da cachoeira. Bem, para chegar lá é preciso descer uma “senhora” ribanceira, perigosamente escorregadia, escorado por uma corda. No fim do trajeto, puro delírio, mas apenas visual: a força d’água impede qualquer tentativa de banho. O ingresso, cobrado por dona Vanderci, custa R$ 3,00 por visitante.
Dali, segue-se para outra cachoeira. Dessa vez, não será preciso descer nem subir por corda, mas atravessar pastos e campos de espinho para chegar a um mirante de arrepiar. Fica-se praticamente ao lado da enorme queda-d’água, que, na base do “chutômetro”, deve ultrapassar os 30 metros de altura. Como ela é bem mais estreita que a anterior – e fica no mesmo rio –, a força da corredeira e a cortina d’água produzidas são ainda maiores.
Dá para perder o fôlego mirando a mata ciliar ao redor do Rio Corrente. Intocada. Agora, muito cuidado: o único ponto de apoio é uma imbaúba fixada no limite de um respeitável penhasco. Quem quiser fotografar a cachoeira terá de escorar-se nela. Toda cautela é pouca, porque o chão costuma estar úmido. Tente deixar essa visita para o fim da tarde, quando grupos de tucanos e de araras rasgam o céu. A imagem fica para sempre na memória.
Matagal – Outro circuito recomendável a quem quer sempre mais – e não se incomoda com carrapatos – cruza as terras de fazendas de gado que ainda resistem em não transformar em pasto o pouco que resta da mata nativa. Começa numa carreira, um antigo caminho de boi. Atravessa-se um bom trecho com mato alto, por vezes roçando o queixo. Aos poucos, a paisagem muda, a vegetação fecha e até o calor diminui.
Três presentes da natureza esperam pelos turistas que encaram essa. Duas grutas e uma empolgante cachoeira, de 50 metros de altura, valem a caminhada. Quem quiser, pode se banhar na base da queda-d’água, que desliza por um paredão alaranjado. Já a visita às cavidades areníticas merece um capítulo à parte.
As grutas formam o sítio arqueológico Diogo Lemes de Lima, antigo dono daquelas bandas. A maior, conhecida como Gruta do Diogo 1, tem 50 metros de abertura e cerca de 40 metros de altura. Em suas paredes, marcas de vandalismo competem com as pinturas rupestres resistentes ao tempo e ao descaso. Muitas das figuras que, segundo uma placa deixada no local, registram a passagem das primeiras ocupações humanas do Planalto Central brasileiro, já desapareceram.
Não dá, honestamente, para avaliar se o que ocorre na Gruta do Diogo 2 é pior. Ali, o gado descobriu um recanto aprazível, protegido do sol. O problema é que, além do estarrecimento causado em quem se depara com bois ali, o pisoteamento de patrimônios naturais da União, a exemplo de grutas e cavernas, infringe a lei. Daí, vira caso de polícia. (F.V.)

Quem quiser contar com os serviços de guia local deve entrar em contato com Odizon Barbosa Ferreira pelo (0--64) 9606-7522. A diária custa R$ 40,00 por grupo

 

SAFÁRI COM JEITINHO BRASILEIRO
A diversidade da fauna faz frente à ‘concorrência’ africana; difícil é ver uma onça 

CHAPADÃO DO CÉU – De cima de uma Kombi, o guia vasculha as redondezas com o binóculo que ganhou de presente de um turista americano. “Ahá, eu sabia!”, diz, poucos minutos depois. “Ali está ele”, indica, com o dedo em riste, a direção em que chafurda um tamanduá-bandeira, em meio à área alagadiça semelhante a um pântano. É para lá que seguem os visitantes, enfiando o pé na lama, com água na altura dos joelhos, para tentar flagrar o animal em seu hábitat. Experiência digna dos melhores safáris africanos.

Talvez seja isso. Talvez, a mais fiel interpretação de um safári, à moda brasileira, tenha lugar no Parque Nacional das Emas, em Goiás. Fato que pode torná-lo mais interessante do que desmerecê-lo. Na reserva reconhecida pela Unesco como Patrimônio Natural da Humanidade encontram-se todos os matizes do cerrado, o domínio nativo brasileiro que mais se assemelha às savanas africanas. Uma biodiversidade de fazer frente a qualquer ecossistema.
Tudo começa nos caminhos que cortam o extremo oeste de Goiás rumo à área protegida, com 1.318 quilômetros quadrados de cerrado, cercado de fazendas por todos os lados. De olho no mapa, o Parque Nacional surge feito uma ilha em que, no lugar de água, cultivos a perder de vista definem seus limites. Por conta disso, já na estrada avistam-se emas e veados-campeiros alimentando-se de soja e milho nas propriedades particulares, além de aves em profusão – especialmente ao nascer do sol.
Fragilidade – O ritmo da natureza tem de ser respeitado: quanto mais cedo se chega ao Parque das Emas, mais animais se vê. E as possibilidades são muitas: sabe-se, por exemplo, que a reserva protege um dos ecossistemas mais frágeis do planeta, que, em contrapartida, conserva uma biodiversidade enorme: 10 mil espécies de plantas, 840 de aves, 160 de mamíferos, 150 de anfíbios e 120 de répteis. Tamanha diversidade, por si só, já garante o interesse turístico.
Edmar Paes Barbosa, de 47 anos, sabe disso. Melhor do que ninguém, é capaz de identificar os mais discretos movimentos em meio à vegetação. Trabalha há três anos como guia no Parque das Emas e joga limpo com os visitantes. “Se não fizerem silêncio, fica difícil ver os animais”, adverte. O curioso é que, apesar disso ser uma verdade incontestável, ele a diz ao volante de um ruidoso veículo, que, a cada freada, faz a espinha arrepiar.
Após um “baile” do tamanduá – animal quase cego e surdo, cujo olfato é extremamente apurado –, o safári deixa o Repouso do Cabeção em direção ao Mirante do Avoador. É o melhor ponto para se avistar onças – nas Emas, há duas espécies, a pintada e a parda. Meia hora de observação, com o binóculo importado, não resolvem. Nada de a bicha mostrar a cara. No retorno, uma parada na Lagoa da Capivara, um dos belos cartões-postais do Parque Nacional.
Dali, de fato, a vista do Rio Formoso é privilegiada. O único porém diz respeito à possível presença de sucuris, hábeis nadadoras e uma das serpentes mais pesadas do mundo. De repente, um ruído forte na mata assusta. No pensamento, a certeza de dar de cara com o temido anfíbio. Nada disso: uma anta, o maior mamífero do Parque das Emas, havia se embrenhado na vegetação. Só Edmar a viu...
Pegada – Situações como essa acendem a vontade de ver mais e mais animais. Que venha o que vier: de preferência, uma sucuri, ou melhor, uma onça. Talvez isso só ocorra porque, no fundo, se sabe que as chances disso acontecer são reduzidas. Bem diferente dos safáris africanos, em que o grande desafio é flagrar o Big Five no mesmo percurso, os cinco “objetos do desejo” das savanas: búfalo, elefante, leão, leopardo e rinoceronte.
Edmar pisa seco no freio. Ninguém entende nada. Ele estica a cabeça para fora da janela e abre um sorriso de boca inteira. Havia encontrado pegadas de onça. Todos descem e observam, intrigados. Trata-se, segundo Edmar, de uma onça-parda, “bem grande”, que provavelmente deixara há pouco o local.
Há apenas 50 exemplares dos maiores felinos brasileiros no Parque Nacional, entre pintadas e pardas. E, atualmente, está em curso um projeto de estudo acerca delas, da ONG Pró-Carnívoros. Cientistas têm monitorado o comportamento dos animais e, entre outras descobertas, souberam que um macho matou um filhote. “Dizem que para copular de novo”, conta o guia.
Cientistas – As pesquisas são outro aspecto importante no Parque das Emas. Embora ainda sem infra-estrutura para turismo – não há centro de visitantes, tampouco restaurante –, existem núcleos de pesquisa dedicados a diferentes temas: veado-campeiro, tamanduá-bandeira, serpentes e onças, entre outros animais, são estudados com afinco.   

“Já sabemos, por exemplo, que o sistema de aceiro permite sobra de alimentos o ano inteiro”, diz o biólogo Alexandre Berndt, de 32 anos. Ele se refere ao projeto Preve Fogo, em que equipes do Ibama promovem queimadas controladas para garantir o ciclo natural das diversas espécies componentes desse intrincado mosaico da vida que, somente agora, abre oficialmente as portas aos turistas. (F.V.)

Parque Nacional das Emas – Aberto todos os dias, das 7 às 17 horas. Ingressos: R$ 3,00 por pessoa. Informações: (0--64) 634-1704

 

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FAÇA AS MALAS

COMO IR

O trecho São Paulo-Goiânia-São Paulo custa a partir de R$ 628,00 na Vasp ( 0-- 11-5532-3000). Na Gol (0300-789-2121), o preço é R$ 698,00. TAM ( 0--11-3123- 1000) e Varig ( 0--11-5091-7000) cobram R$ 948,00.
PACOTE
No programa oferecido pela FreeWay ( 0--11-5088-0999; www.freeway.tur.br) estão incluídos a passagem aérea, os traslados, uma noite de hospedagem em Goiânia, quatro em Serranópolis e uma em Chapadão do Céu, além de café da manhã, 5 jantares, 3 almoços, 2 lanches de trilha, passeios, entradas para as atrações, acompanhamento de guia e seguro-viagem. Preço: R$ 2.030,00 por pessoa em acomodação dupla.

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